"Havia algo de melancólico na figura dos astronautas a participar, com o presidente Barack Obama, da cerimônia comemorativa dos quarenta anos do desembarque na Lua"
O tema do romance O Deserto dos Tártaros, do italiano Dino Buzzati, publicado em 1940, é a esperança. Giovanni Drogo, o personagem central da história, é um militar que ganha seu primeiro posto no remoto e isolado forte Bastiani, situado na fronteira norte de um país indefinido, e ali permanecerá até o fim da carreira. As tarefas são repetitivas e inúteis. Nada acontecia por ali fazia anos, e continua não acontecendo. Drogo tem chances de mudar de posto em busca de uma vida com mais ação e mais propósito, mas deixa escapá-las todas. Move-o a esperança de que um dia o inimigo atacará por aquele flanco e enfim se revelará que a vigília não foi vã. Melhor ainda, nesse dia ele poderá se sagrar herói, aspiração máxima de quem escolhe a carreira militar.
Drogo envelhece esperando o que nunca acontece. Passaram-se os anos, mas ele "não pensa que o futuro se reduziu terrivelmente, não é mais como antes, quando o tempo vindouro podia parecer-lhe um período imenso, uma riqueza inexaurível que ele não corria nenhum risco em esbanjar". Ele persistia "na ilusão de que o importante ainda está para começar". Este é o grande momento do livro. Nele o autor ultrapassa os limites de sua história e de seu personagem para apontar lapidarmente um dos mais fortes motivos, se não o mais forte, pelos quais, em qualquer circunstância e qualquer tempo, continua-se a viver e a manter a flama: a persistente esperança de que o melhor ainda está por vir.
A trajetória do trio de astronautas da Apollo 11 não poderia, à primeira vista, oferecer contraste maior com a de Giovanni Drogo. Na vida de Drogo não aconteceu nada. Na deles aconteceu de serem os primeiros a empreender uma viagem de desembarque na Lua. Drogo esperou em vão pela glória. Os astronautas conheceram a glória de uma empreitada que por milênios pareceu impossível. No entanto, havia na semana passada algo de melancólico na figura daqueles três senhores, a participar, com o presidente Barack Obama, da cerimônia comemorativa dos quarenta anos da proeza. A cerimônia soava a desfile de veteranos de guerra. Desfiles de veteranos de guerra são patéticos. Mostram senhores não só distantes do antigo garbo e do momento que os alçou acima do comum dos homens e da existência comum, como os põem na desconfortável posição de reclamar o reconhecimento a uma geração que guarda memória apenas vaga de seus feitos.
Do trio de astronautas, os dois que pisaram na Lua (o outro permaneceu em órbita) experimentaram momentos dolorosos, nestes quarenta anos. Edwin Aldrin mergulhou no alcoolismo e na depressão. Neil Armstrong impôs-se um alerta neurótico contra a exploração não autorizada de sua fama. Deixou de dar autógrafos quando descobriu que eram comercializados. Moveu processo contra uma empresa que usou sua (tola) frase do "pequeno passo para um homem, grande salto para a humanidade". Moveu outro, campeão de exotismo, contra o barbeiro que ousou vender um chumaço de seus cabelos. Trancou-se, como ermitão, na pequena cidade em que mora.
Os heróis da Lua nada têm a ver com Giovanni Drogo, mas lhes ocorreu algo tão incômodo quanto. Conheceram cedo, antes dos 40 anos, o ponto mais alto de sua vida. Como escreveu Aldrin: "Que pode fazer um homem, depois de ter andado na Lua?". A eles foi roubado o princípio basilar da esperança, aquele segundo o qual, na fórmula de Dino Buzzati, "o importante ainda está por começar". É o que ocorre igualmente com outros profissionais de glória precoce, como os jogadores de futebol e as crianças-prodígio que ao crescerem não confirmam seus talentos. Os astronautas da Apollo 11 nos parecem, e talvez pareçam também a si mesmos, personagens que, cedo, foram condenados a virar sombras de si mesmos.
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Quanto a Giovanni Drogo, para quem quer saber o fim da história – a guerra acaba estourando, sim, na fronteira norte, mas bem no momento em que, velho e doente, ele é retirado do forte para dar lugar a alguém apto ao combate. Morre pouco depois, no solitário quarto de uma estalagem, e, no último momento, embora ninguém o contemple, sorri. Segundo escreveu o crítico Antonio Candido, num bonito ensaio, Drogo sorri porque enfim compreende que "a Morte era a grande aventura esperada" e que enfrentá-la "com firmeza e tranquilidade" é "o momento supremo da vida de todo homem". Pode ser. Mas pode ser também, mais prosaicamente, um sorriso de rendição. A morte, no cumprimento de seu papel, acabara de revelar-lhe a vacuidade do sonho, da glória e da esperança.
Na hora de contratar, hotéis e restaurantes de Dubai e Abu Dhabi fazem opção preferencial pelo jeito amistoso dos brasileiros
Juliana Linhares
Quem está na faixa dos 30 anos, é solteiro, ainda não engrenou carreira, transita na área de turismo e hotelaria e nunca assistiu à novela Caminho das Índias talvez não saiba, mas existe um nicho no mercado de trabalho cheinho de vagas. Vantagens: dá casa, comida e bom salário. Desvantagem: fica a 12 000 quilômetros de distância em local de usos e costumes que são em tudo o oposto dos brasileiros. Em Dubai e Abu Dhabi, dois integrantes dos Emirados Árabes Unidos, hotéis e restaurantes buscam brasileiros e brasileiras para trabalhar em funções de recepcionista, garçom, sommelier, músico de samba e segurança. Em troca, oferecem salário de 1 000 a 2 000 dólares (que podem dobrar com as gorjetas), plano de saúde, moradia em apartamento mobiliado, com aluguel, água e luz, condução fretada e todas as refeições no local de trabalho. Desde 2007, pelo menos 100 brasileiros foram contratados por hotéis de Dubai (o total de brasileiros nos Emirados chega a 718) e existem mais 400 vagas abertas a interessados. Por que buscar mão de obra tão longe? Os Emirados, ricos em petróleo e pobres em gente, e menos ainda da categoria disposta a dar duro, são coalhados de estrangeiros. Em Dubai, 90% da população é formada por pessoas de outros países. São elas que fazem tudo, numa conhecida divisão de trabalho: os cargos de gerência e administração são ocupados por europeus, principalmente ingleses; os operários da enorme indústria da construção civil vêm de todos os países mais pobres da Ásia (assim como os motoristas de táxi são paquistaneses e as prostitutas, russas de ex-repúblicas soviéticas). Os brasileiros se encaixam num patamar médio do setor de serviços hoteleiros por serem considerados simpáticos, sorridentes e pouco dispostos a arranjar confusão. "O maior apelo do brasileiro é ser amigável. Nos hotéis em Dubai, os hóspedes são chamados pelo nome. O jeito risonho e amável do brasileiro se encaixa bem. Além disso, ainda aceitamos salários que não são altíssimos", explica Marcelo Toledo, diretor de uma agência de empregos que se especializou em levar brasileiros para Dubai.
"No que se refere a trabalho, aqui é o topo do mundo. Estamos a serviço do que há de mais luxuoso no planeta e de certa forma também desfrutamos esse conforto", diz a paulistana Cristina Piereck, 33 anos, que trabalhou como sommelière durante onze meses em um hotel de Dubai e se transferiu para um restaurante no vizinho emirado de Abu Dhabi. A contrapartida é ter de se adaptar aos costumes ultraconservadores e à alta tensão cultural num ambiente em que, nos extremos, estrangeiros consideram os locais preguiçosos e atrasados e são por estes considerados aproveitadores depravados. "As leis são duríssimas. Quase tudo é proibido. Beijo em público não pode. Beber fora dos hotéis também não", conta Cristina. Consumidora de bebidas até por profissão, ela precisou conseguir uma carteirinha, com chip-limite de 150 dólares por mês, para beber fora do horário de trabalho. "Como uma cerveja custa 8 dólares, meu consumo é bem pequeno", relata. Tudo fica ainda mais difícil no Ramadã, período de um mês em que o mundo islâmico se dedica às orações e ao jejum durante o dia: "Nós não podemos comer nem beber água na frente de ninguém". Toledo diz que, embora o salário inicial não seja muito alto e as regras primem pela rigidez, há boas e rápidas oportunidades de promoção. "É preciso assinar um contrato de trabalho de dois anos. Eles pagam a passagem de ida e de volta ao Brasil depois de dois anos e, em seguida, uma vez por ano. Mas se o contrato é quebrado o funcionário tem de reembolsar as passagens. Além disso, perde o visto de permanência no país. O mesmo acontece se ele for trabalhar embriagado ou drogado", enumera. As exigências dos contratadores incluem cláusulas escandalosamente discriminatórias. "O homossexualismo fere a legislação local. Recentemente, dois gays que estavam namorando na praia foram presos e deportados", diz Toledo. É proibido contratar judeus (que também não se candidatam a morar num país árabe) porque, na convoluta explicação de Toledo, "os Emirados não têm relações diplomáticas com Israel". Negros também não são bem-vindos – "Eles já contratam muita gente da África e Índia e gostam de diversificar o leque de nacionalidades e aparências", escorrega Toledo.
Apesar da longa lista de exigências e proibições, o paulistano Alex Cale, 30, há dois anos gerente do único restaurante brasileiro nos Emirados, a churrascaria Chamas, em Abu Dhabi, tem boas impressões. "A violência é zero. No calor, quando os termômetros chegam a 50 graus, ligo o ar-condicionado do carro e o deixo destrancado, gelando, por uns dez minutos. Quando volto, ninguém tocou em nada", conta. Cale mora num apartamento de 65 metros quadrados com mulher e filha, oferecido pela churrascaria, e em breve o patrão começará a pagar a escola da menina. "Os costumes são severos, mas é só usar o bom senso e respeitá-los que dá para viver muito bem aqui", afirma. Em Dubai há quatro meses, o segurança de boate Vinicius Zonaro, de Jundiaí, no interior de São Paulo, ainda se espanta com as contradições: "Não se pode beber na rua, mas nos hotéis os turistas enchem a cara. Não se pode namorar, mas as boates estão todas lotadas de prostitutas, principalmente russas". A recepcionista Bruna Miranda, 26, que saiu de São José do Rio Preto, em São Paulo, há um ano para trabalhar em um hotel em Dubai, tem visão mais pragmática da situação. "O governo está investindo tudo em turismo. Então, eles fecham os olhos para o que os visitantes fazem. Aqui, tudo não pode, mas tudo termina podendo. E em excesso. Como, aliás, tudo em Dubai", diz Bruna. No próximo mês, uma rede de hotéis mandará representante ao Brasil para selecionar funcionários para um total de 400 vagas. Por enquanto, há cinquenta interessados.
As administrações municipais do Rio de Janeiro e São Paulo têm convênios com uma fundação mediúnica a quem elas atribuem o poder de mudar o clima
Silvia Rogar
Por mais que a ciência avance no conhecimento dos fenômenos naturais, as variações climáticas continuam a contrariar as previsões. Dá-se como certo que vai fazer um solão no fim de semana, e lá vem uma frente fria inesperada e atrapalha tudo. Os meteorologistas anunciam um inverno chuvoso, e logo o ar seco está irritando olhos e gargantas. O clima é caótico. Ele sofre interferências complexas das correntes de grande altitude, do grau de absorção da luz do sol pela superfície do mar, da força e direção das correntes marítimas e até das mais leves alterações na composição dos gases que formam a atmosfera. Já foi descrito como um sistema em que "uma borboleta batendo asas em Tóquio pode provocar uma tempestade em Nova York". Se é quase impossível prever o clima, o que se dirá então da tarefa de modificá-lo, ora expulsando nuvens de chuva para evitar enchentes, ora fazendo-as se concentrar sobre áreas devastadas pela seca para aliviar os flagelados. Pois não é que as prefeituras das duas maiores cidades brasileiras, São Paulo e Rio de Janeiro, assinaram convênios com a Fundação Cacique Cobra Coral, que se anuncia como tendo poder de interferir nos fenômenos climáticos através de uma entidade espiritual?
A possibilidade da existência de mistérios entre o céu e a terra não é algo assim tão distante das convicções de milhões de brasileiros. Mas daí a celebrar convênios oficiais com espíritos vai um longo caminho. A surpresa maior é as prefeituras estarem plenamente satisfeitas com os resultados. No Rio de Janeiro, o convênio do outro mundo começou em 2002, na gestão do prefeito Cesar Maia, um tipo meio excêntrico, crédulo mas bom administrador. Ele atribui sem rodeios à atuação do espírito do cacique o fato de o Rio de Janeiro não ter sofrido nenhuma tragédia climática durante seus dois últimos mandatos de prefeito. Cesar Maia disparou um e-mail para a prefeitura de São Paulo, que ainda estava sob o comando do atual governador José Serra, recomendando ao colega que buscasse a mesma proteção espiritual para a cidade. Coube ao vereador paulistano Ricardo Teixeira, então secretário adjunto de Coordenação das Subprefeituras, cuidar da assinatura da parceria. Lembra ele: "Aceitamos a sugestão do Cesar Maia e, depois de assinar o convênio, durante o ano e meio que passei na administração de São Paulo não registramos nem uma morte sequer que possa ser debitada às chuvas".
A metafísica ganhou também a adesão dos sucessores de Cesar Maia e José Serra. Em São Paulo, a administração do prefeito Gilberto Kassab informou que o convênio, assinado por tempo indeterminado e sem custo para os cofres da cidade, não foi revogado. No Rio de Janeiro, o secretário municipal de Obras, Luiz Antonio Guaraná, diz que pensou em dispensar os serviços do cacique. Bastou que caíssem as primeiras chuvas do verão no começo do ano para que ele se agarrasse às mesmas crendices da administração anterior. O convênio foi prontamente restabelecido. "Brinquei com o Guaraná que, entre ele e a fundação, eu ficaria com a fundação", diz o prefeito Eduardo Paes, justificando a prorrogação do contrato de serviços do além. Paes já encomendou à fundação uma nova "operação de alteração climática". Ele quer um veranico, a súbita elevação passageira dos termômetros em pleno inverno, com que espera controlar o surto da gripe suína, cuja propagação se beneficia das baixas temperaturas. O prefeito Paes ficou convertidíssimo depois de atribuir a uma operação do cacique o sucesso da visita do Comitê Olímpico Internacional, no mês de maio, para avaliar a candidatura do Rio de Janeiro aos jogos de 2016. Diz Paes: "Choveu durante as sabatinas no hotel, mas o sol se abriu na hora das visitas aos locais das provas. Até ventou na apresentação das instalações da vela. As condições climáticas foram perfeitas".
O esoterismo e o mundo oficial são antigos parceiros no Brasil. Ministro de Minas e Energia no governo do general João Figueiredo, o engenheiro César Cals recorria às visões de uma médium para tentar localizar jazidas de minérios no subsolo brasileiro – e não fazia nenhum segredo disso. O chefe da Casa Militar do governo do sociólogo Fernando Henrique Cardoso, general Alberto Mendes Cardoso, era médium e incorporava o espírito do "Dr. Amaro", através de quem diz ter curado muita gente. Os convênios para domar o clima, no entanto, superam em ousadia todas as experiências anteriores de colaboração oficial vinda do além. A fundação nada cobra por suas operações, mas exige dos governantes a contrapartida na forma de obras contra enchentes ou secas.
O cacique Cobra Coral se apresenta aos mortais pela intermediação da paranaense Adelaide Scritori, de 54 anos. Antes de se embrenhar na selva brasileira, ele teria sido ninguém menos do que o italiano Galileu Galilei, o físico e matemático que criou a ciência moderna no século XVI. Fosse isso pouco, segundo Adelaide, o cacique mais tarde encarnou-se em Abraham Lincoln, o 16º presidente dos Estados Unidos, que aboliu a escravidão e manteve o país unido ao cabo de uma guerra civil em que morreram 620 000 pessoas. Difícil precisar que lustros os dotes de um cacique poderiam acrescentar à formidável soma das biografias de Galileu e Lincoln. O próprio cacique, porém, cuida de ter assessores muito bem equipados. Para saber exatamente onde e como exercer sua "força espiritual" para mudar o clima, Adelaide usa orientações técnicas de um professor aposentado da Universidade de São Paulo (USP) e de um pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
A médium Adelaide está mais focada nos políticos: "Eles já sabem que o nosso trabalho não soluciona todos os problemas climáticos. Ele funciona como um air bag, algo que reduz as consequências piores de uma batida, mas que só adianta se o automóvel estiver com a manutenção em dia". Quando não está em suas operações mediúnicas, Adelaide administra ao lado do marido, Osmar Santos, uma corretora de imóveis e de seguros, as Organizações Tunikito. A compensação financeira indireta e, até onde se sabe, voluntária feita pelos políticos se resume a eles fazerem seus seguros pessoais através da Tunikito. No caso de convênios privados, a fundação atua através da La Niña, agência meteorológica da Tunikito que cobra cerca de 10 000 reais, fora passagem, hotel e demais despesas da médium e seus acompanhantes. Entre os empresários usuários constantes dos serviços do cacique, está o publicitário carioca Roberto Medina, do Rock in Rio. Em seu livro autobiográfico Vendedor de Sonhos, Medina escreveu: "O cacique já quase faz parte da empresa". Deixa uma borboleta bater mais forte as asas em Tóquio...!
Despachar Avigdor Lieberman em missão de boa vontade é como nomear Pamela Anderson embaixadora da castidade. Comparativamente, no entanto, o ministro de Relações Exteriores e líder de um partido político quase tão à direita quanto é possível em Israel tem se mostrado contido. Fez até curso com um especialista em relações públicas para modular o discurso. Nascido com o nome de Evet na ex-república soviética da Moldávia, onde foi leão de chácara, trabalhou como carregador de malas em Israel e fez carreira política entre os emigrantes chamados genericamente de russos. Lieberman acha que a cidadania dos palestinos radicados em Israel deve ser condicionada a um juramento de lealdade ao estado. Também prega a troca de territórios com grande população árabe por parte dos assentamentos judeus na Cisjordânia. Na semana passada, ele veio ao Brasil como contraponto à próxima visita do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad. Falou ao editor assistente Thomaz Favaro. Os principais temas:
Ahmadinejad O presidente iraniano nega o holocausto e declara toda semana que pretende destruir o estado de Israel, acabar com o sionismo e expulsar todos os judeus para a Europa. É inaceitável que uma pessoa racista e preconceituosa como ele seja aceita em qualquer lugar. Ahmadinejad é maluco. Essa é a nossa posição, e eu a expliquei a meu colega Celso Amorim e ao presidente Lula.
Como lidar com o Irã Quando os cidadãos iranianos protestaram pacificamente contra o resultado das últimas eleições, foram brutalmente reprimidos pelo governo de Ahmadinejad. O mundo todo viu a verdadeira face do regime iraniano. Não podemos aceitar que a comunidade internacional continue a ser tão flexível com ele. O Irã é patrocinador de redes terroristas internacionais, como o Hezbollah no Líbano e o Hamas na Faixa de Gaza – também ativos na América do Sul, como mostraram os atentados terroristas ao centro judaico em Buenos Aires, em 1994. Os iranianos estão construindo instalações nucleares e afirmam que o fazem para fins pacíficos. Ao mesmo tempo, desenvolvem mísseis de longo alcance, provavelmente para disseminar essa capacidade nuclear pacífica para o mundo todo. Já desperdiçamos muito tempo com negociações. Precisamos de sanções mais duras contra o Irã.
Assentamentos Os assentamentos não são um obstáculo para a paz. Isso é só uma desculpa do mundo árabe para evitar negociações diretas com Israel. O que havia antes de 1967, quando começamos a construir os assentamentos? O conflito e a tensão eram os mesmos. Entre 1948 e 1967, os árabes controlaram todos os territórios da Faixa de Gaza e Judeia e Samaria (nomes israelenses para aCisjordânia). Durante vinte anos, tiveram a possibilidade de estabelecer um estado palestino, mas não fizeram isso. Não estamos construindo novos assentamentos na região. As pessoas nascem, casam-se, têm filhos. É preciso providenciar uma vida normal para esses cidadãos – casas novas, hospitais, creches.
Terra sem paz Promessas como a criação de um estado palestino em dois anos e slogans como terra por paz são apenas recursos da retórica. A intenção pacífica de ambos os lados precisa ser traduzida em passos e ações concretas. Nos últimos trinta anos, os israelenses abriram mão de territórios que, somados, representam três vezes o tamanho do país. Nas negociações de Camp David, em 2000, o primeiro-ministro Ehud Barak propôs a volta às fronteiras de 1967 e a partilha de Jerusalém. A resposta do líder palestino Yasser Arafat foi a segunda intifada. O primeiro -ministro Ariel Sharon iniciou a retirada unilateral da Faixa de Gaza em 2005, removendo 10.000 judeus que viviam na região. Os palestinos responderam com mísseis sobre as cidades israelenses. Demos todos os passos necessários para alcançar a paz e mesmo assim as negociações continuam emperradas.
Separação de corpos A melhor solução para Israel é criar um estado mais homogêneo. Devemos seguir o exemplo de Chipre. Antes de 1974, gregos e turcos viviam juntos. Era um clima de conflito constante e, no fim, houve uma guerra. Depois de 1974, cada povo foi concentrado em uma parte da ilha. Mesmo sem um acordo de paz, desfrutam segurança, estabilidade e prosperidade. Em Israel, seria impossível trocar completamente todos esses territórios com os palestinos. Mas essa seria a melhor maneira de reduzir o atrito entre os povos.
Juramento de lealdade Queremos seguir o exemplo dos Estados Unidos, onde todos os estudantes fazem o juramento à bandeira do começo ao fim do ciclo escolar. O povo judeu presta lealdade a praticamente todos os países do mundo onde vive. Há judeus no Brasil, na Rússia, nos Estados Unidos. Eles servem no Exército e vão à guerra por esses países. Nós também temos o direito de esperar que todos os cidadãos de Israel sejam leais. Se o cidadão não quer jurar lealdade à bandeira, a escolha é dele. Mas, como país, precisamos exigir essa posição.
A entidade que representa os estudantes brasileiros envergonha sua história de lutas com o protesto a favor do governo, pago pelos cofres públicos
Gustavo Ribeiro
A União Nacional dos Estudantes (UNE) transformou-se em uma repartição financiada pelo governo para apoiar suas causas. Triste. Poucas coisas são mais patéticas e melancólicas do que um jovem sem espírito crítico. Felizmente, são raríssimas as circunstâncias históricas que levam a juventude a sufocar sua qualidade humana mais preciosa, a rebeldia com ou sem causa, para idolatrar o poder central. Quando isso ocorre, é sintoma de alguma moléstia social. Arriscando aqui a violar a Lei de Godwin (a bem-humorada sacada do advogado americano Mike Godwin, segundo quem todo argumentador perde força quando compara um evento atual com os da Alemanha nazista), a UNE de hoje lembra o fervor patriótico da Juventude Hitlerista. Lembra também os squadristi, a tropa de choque infanto-juvenil do regime fascista italiano de Benito Mussolini. A UNE, a Juventude Hitlerista e os squadristi têm em comum a força na ausência da razão e o desejo de servir cegamente a um líder.
Reunidos em Brasília em congresso na semana passada para eleger o novo presidente da entidade, os estudantes foram às ruas. Combater a corrupção? Não. Pela preservação da Floresta Amazônica? Nada disso. A UNE protestou contra a criação da CPI da Petrobras, uma das patrocinadoras do evento. A antes combativa entidade estudantil inovou em sua servidão ao poder em troca de dinheiro. Para abrir o congresso, a entidade convidou o presidente Lula, saudado por cerca de 3 000 squadristi brasileiros. Talvez Brasília só tenha assistido a tamanho servilismo por parte de estudantes universitários brasileiros quando, no regime militar, foi organizada a Arena Jovem, braço do partido de sustentação ao governo.
A atual geração está jogando na lama a rica história da UNE de enfrentamento com o poder. Não apenas de contestação, mas de produção cultural alternativa de qualidade nos anos 60 – quando foi presidida por José Serra, hoje governador de São Paulo. Cerca de 6 000 estudantes que foram ao congresso ficaram alojados em escolas públicas de Brasília – e estes, sim, deixaram sua marca de rebeldia, pena que apenas depredando salas, destruindo mesas e abandonando garrafas de bebidas alcoólicas vazias e preservativos usados nas salas.
Um dos advogados mais experientes do mundo na briga por indenizações a vítimas de desastres aéreos diz que investigações oficiais são conduzidas por potenciais culpados
Lucila Soares
O advogado americano Steven Marks defendeu os direitos de famílias de vítimas de quase 100 acidentes aéreos, incluindo algumas das maiores tragédias da aviação civil dos últimos vinte anos. Ao longo desse tempo, especializou-se na investigação das causas desses desastres, e desenvolveu uma convicção: para identificar responsáveis e conseguir indenizações justas, é fundamental não depender exclusivamente das investigações oficiais. Marks é sócio da Podhurst Orseck, importante firma de advocacia sediada em Miami. Ele esteve no Rio de Janeiro no último dia 15. No escritório Leoni Siqueira Advogados, ao qual está associado na assistência a doze famílias brasileiras de vítimas do acidente com o Airbus da Air France que caiu no fim de maio, ele deu a seguinte entrevista a VEJA.
Qual foi o caso mais difícil de sua carreira? O mais difícil, desafiador e recompensador, emocional e legalmente, foi a tragédia do voo da SilkAir, com um Boeing 737 que ia de Jacarta, capital da Indonésia, para Cingapura, em 1997, e caiu, matando as 104 pessoas a bordo. Representamos 33 famílias. Alguns acidentes anteriores haviam apontado problemas com uma válvula do sistema de controle do leme, cuja falha podia provocar a perda do controle pelo piloto. Mas, quando o acidente da SilkAir aconteceu, a primeira hipótese que prevaleceu foi a de suicídio do piloto, porque o gravador de voz da cabine e o gravador de dados do voo estavam desligados. Eu nunca acreditei nessa teoria, e insisti em buscar a causa real pelos seis anos seguintes. O julgamento durou dois meses, e todos os jurados se manifestaram a nosso favor. As famílias de três passageiros do voo receberam um total de 43,6 milhões de dólares. Pela repercussão que teve, esse caso contribuiu para que todos os 4 000 Boeings 737 então em operação no mundo tivessem a válvula defeituosa trocada. Dessa forma, o sistema de controle do leme tornou-se mais seguro. O irônico nisso tudo é que o fabricante dessa peça ainda faturou muito com o próprio erro. Cada válvula nova custou 950 000 dólares. O fabricante ganhou quase 4 bilhões de dólares.
O que a tragédia do voo 447 da Air France tem de diferente em relação aos demais acidentes nos quais o senhor defendeu as famílias das vítimas? Esse desastre será um dos pouquíssimos acontecidos com aviões comerciais nos quais não se poderá contar com as informações da caixa-preta. Isso é comum nos acidentes com aviões pequenos e não inviabiliza a reconstituição do acidente e suas causas. Mas é raríssimo em aeronaves comerciais do porte do Airbus.
Por que o senhor defende as investigações independentes para apurar as causas dos acidentes aéreos? As oficiais não são confiáveis? Não se trata disso. Meu ponto é que os fabricantes acabam tendo um papel excessivamente importante nas investigações das causas. No caso que acabo de relatar, a caixa-preta foi retirada do avião pelo governo da Indonésia e enviada ao fabricante, a americana Honeywell. O relatório feito pela Honeywell deu a entender que o piloto voluntariamente desligara o registro de voz, abrindo caminho para a especulação de que ele havia cometido suicídio e levado consigo toda a tripulação e os passageiros. Isso mostra que, mesmo quando se recupera a caixa-preta intacta, a leitura e a interpretação das informações não são inteiramente fora de questionamento. Por isso, quando estamos defendendo os interesses das famílias de vítimas, não podemos confiar apenas nas investigações oficiais, porque elas são conduzidas por representantes de empresas potencialmente responsáveis pelo acidente. No caso do AF-447, o fato de as investigações estarem sendo coordenadas por um organismo oficial da França (o BEA, escritório de investigações e análises, na sigla em francês) torna ainda mais vital que exista uma investigação independente. Os interesses que o governo francês tem na Air France e na Airbus não podem ser desconsiderados.
Como é conduzida a investigação privada? É uma operação que custa muitos milhões de dólares e envolve a contratação de especialistas em diversos campos – pilotos, controladores de voo, meteorologistas, interpretação de dados, mecânica. Essa equipe acompanha e questiona cada conclusão da investigação oficial, reúne documentos, constrói e checa as próprias hipóteses. O objetivo é descobrir a verdade e conseguir provas que sustentem essa verdade. É disso que dependem as famílias que recorrem a nós para brigar na Justiça pelas indenizações a que têm direito.
"O cálculo do valor econômico da indenização não é perfeito. Ninguém pode saber o futuro. Mas deve-se considerar que a vítima faria tudo o que havia planejado na vida"
Quais são as indenizações a que as famílias têm direito? Cada caso é um caso. Uma viúva sem filhos, sem pais e que não trabalhe é um caso muito diferente de um homem de 45 anos com quatro filhos e uma boa situação profissional. Na maioria dos países, a legislação garante reparação econômica por morte, levando em conta os ganhos atuais, por quanto tempo a pessoa continuaria trabalhando, e calcula quanto seria necessário para manter o padrão de vida da família. Esse é o cálculo econômico. Evidentemente, ele não é perfeito, porque ninguém tem como saber como seria a trajetória profissional de alguém, se ela seria bem-sucedida ou não. Mas por que o responsável pela morte dessa pessoa deveria levar em conta a possibilidade de que ela não fosse bem-sucedida profissionalmente? É o contrário. Deve-se partir do princípio de que ela faria tudo o que havia planejado na vida.
É possível reparar com indenização a dor e o sofrimento de quem perde uma pessoa da família? Esse é um dano intangível, imensurável, que não é regido por fatores objetivos como os levados em conta no cálculo de uma compensação por perda financeira. Nesse ponto, os Estados Unidos têm um sistema tremendamente favorável às famílias: os casos são julgados por um júri formado por pessoas comuns, leigas, que valorizam a vida humana e consideram que as empresas culpadas pela morte de alguém têm de pagar também pelo sofrimento que provocam em sua família. Com isso, é possível conseguir 10 ou 20 milhões de dólares por dor e sofrimento na Justiça americana. Nos Estados Unidos, nós sempre acreditamos que o sistema de júri é a melhor ferramenta de controle das empresas, porque são os cidadãos que decidem o que é e o que não é aceitável no comportamento delas. É por isso que sempre queremos levar as ações para os Estados Unidos. Não existe nenhum lugar melhor para dar início a uma ação de indenização. Além do sistema de júri, existe uma tradição de obrigação de produção de provas e de convocação de testemunhas única no mundo. Os procedimentos são rápidos, e as indenizações são altas, assim como as punições são severas.
No caso do voo 447 da Air France, é possível acionar os responsáveis nos Estados Unidos? Essa é uma possibilidade bastante clara. Além da companhia aérea, que é a primeira a ser acionada quando ocorre um acidente, é possível ir à Justiça contra o fabricante da aeronave ou qualquer fornecedor que tenha contribuído para o desastre. No caso específico, a Airbus, a Honeywell e outros fornecedores de peças podem ser acionados nos Estados Unidos. A Air France também pode ser acionada na Justiça americana.
Os aviões com sistemas muito automatizados como os Airbus A330-200 estão mais sujeitos a acidentes? Essa discussão me faz lembrar de meu avô, que tinha uma máquina de escrever mecânica e vivia batendo naquelas teclas. Por melhores que fossem, as máquinas mecânicas não poderiam sobreviver ao avanço da tecnologia. Combinado a um sistema mecânico de redundância, o fly-by-wire(sistema digital de acionamento remoto das partes móveis externas do avião como os freios aerodinâmicos e o leme) é o futuro. O problema em relação à automação e aos computadores em geral é que, quando funcionam bem, são fantásticos. Quando algo dá errado, eles viram os grandes vilões. Essa ideia é movida pela ilusão de que é possível ter um sistema à prova de queda, e infelizmente nós não teremos um sistema à prova de queda. Todos têm falhas, e a segurança é fortalecida a partir da constatação de falhas. É um erro concluir que é necessário descartar o fly-by-wire por ser perigoso.
"O fabricante ocupa uma posição única, em que é capaz de gerenciar os problemas causados por seus produtos. No acidente do voo 447, não há dúvida de que o Airbus falhou"
Podemos estar diante de um caso parecido com o do Boeing 737, em que se teve de substituir uma determinada peça em todas as aeronaves? Sim. Isso já ficou claro em relação ao pitot (tubo externo de captação do vento que fornece dados sobre a velocidade do avião). Mas as conclusões das investigações podem apontar outras mudanças necessárias. Estamos diante de um fato relevante: o fabricante ocupa uma posição única, em que é capaz de gerenciar os problemas causados por seus produtos. Isso lhe dá responsabilidades dentro das regras da aviação. Eles têm de monitorar e rastrear suas aeronaves e os problemas ocorridos com elas de uma maneira impossível para as operadoras. Nesta situação específica, claramente o produto falhou. Não há dúvida para mim de que o Airbus falhou. Este não foi um problema causado pelo piloto. Foi um problema do Airbus.
A Airbus havia alertado para o problema com o pitot. Isso pode ser usado como evidência? Se uma empresa fabrica um produto defeituoso, ela é responsável por isso. Alertar sobre a existência do defeito não a exime de responsabilidade. Dependendo do caso, é preciso haver uma recomendação expressa para substituir as peças potencialmente defeituosas. Comunicados como os feitos pela Airbus não obrigam o usuá-rio a fazer a troca de produto algum. Eles nunca disseram a ninguém: "Nós temos um problema de segurança de voo, recomendamos a substituição imediata da peça X devido a A, B, C e, porque o erro é nosso, estamos fazendo a troca sem nada cobrar". Acidentes não são atos de Deus. Eles acontecem porque alguém cometeu um erro. Frequentemente são produto não de um, mas de uma série de problemas que se sucedem porque as providências para evitá-los não foram tomadas. Isso tem de ser apontado, é preciso mostrar que aquilo não deveria ter acontecido daquele jeito, para que se possam mudar e melhorar as condições de segurança.
Conhecendo tão bem pilotos, aviões e falhas em geral, o senhor não tem medo de voar? Eu fico atento a todos os ruídos do avião, inclusive aqueles que são imperceptíveis para quem não tem o ouvido acostumado. Mas aprendi a tirar da cabeça toda e qualquer preocupação nessa área. A maior parte das viagens é muito segura, estatisticamente os aviões continuam sendo o meio de transporte mais seguro. Quando acontece um desastre, evidentemente isso provoca grande comoção, porque morre muita gente ao mesmo tempo, mas a verdade é que viajar em um dos milhares de voos que decolam todos os dias é mais seguro do que viajar no seu carro. Por isso eu realmente não tenho medo de voar.
Nem vendo tão de perto o sofrimento das famílias que contratam seus serviços? Isso não me faz ter medo, mas conviver com esse sofrimento é algo cada vez mais difícil para mim. Talvez porque esteja ficando mais velho. A gente vê os próprios filhos, a família, e é inevitável imaginar-se nessa situação.
Mas o senhor parou de pilotar. Sim, porque tenho dois filhos e já vi muitos acidentes com pilotos muito melhores do que eu. Mas tenho saudade. Pilotar é uma grande experiência. Eu adorava. Fazia até acrobacia aérea.
Como o senhor escolhe uma companhia aérea para viajar? Tento não voar por companhias aéreas regionais low cost. Além disso, não voo mais de helicóptero. Porque só existem dois tipos de helicóptero: os que já caíram e os que vão cair.
Espiritualidade com Princípios numa Sociedade sem Parâmetros
Sermão 1
Tome Posição!
I Timóteo 1:3-19
Introdução
Oapóstolo Paulo inicia sua primeira carta à Timóteo relembrando seu filho na fé acerca da razão pela qual ordenou que ele permanecesse na cidade de Éfeso, quando seguiu para Macedônia em sua quarta viagem missionária. Paulo define a missão de Timóteo como sendo “ordenar a certas pessoas que não mais ensinem doutrinas falsas”. Suas palavras são objetivas e soam até mesmo autoritárias.
A verbo utilizado por Paulo para se referir as doutrinas falsas (heterodidaskaleo = heteros + didaskaleo) poderia ser traduzido por “outros ensinamentos”, ou seja, ensinamentos que diferem essencialmente daquele ensinado por Jesus e seus apóstolos. Em Gálatas 1:6 Paulo faz menção a estes “outros ensinamentos” usando o termo como sendo um “outro Evangelho” (heteron euaggelion).
Assim como nos tempos de Paulo e Timóteo, vivemos imersos numa cultura pluralista que preza pela tolerância e que se sente muito desconfortável com avaliações mais críticas e assertivas acerca de idéias e práticas que nos envolvem. No entanto, o texto de Paulo a Timóteo nos encoraja a olharmos ao nosso redor de forma mais crítica, percebermos que nem tudo que parece de Deus é realmente Evangelho de Deus e tomarmos posição.
Para tanto, gostaria de sugerir que dividissemos nossa reflexão em duas partes. Na primeira parte, vamos abordar o conteúdo e os efeitos das falsas doutrinas que emergiam no contexto da igreja de Éfeso. Na segunda parte, veremos as recomendações de Paulo acerca de como podemos evitar e combater estas falsas doutrinas.
1.Conteúdo e Efeitos das Falsas Doutrinas
Estes “outros ensinamentos”, ou “outro Evangelho” conforme linguagem de Paulo aos Gálatas, sutilmente, sabotavam o Evangelho de Deus e seus efeitos na vida das pessoas. Por isso, Paulo exorta Timóteo a resistir fortemente a estas idéias, ordenando a certas pessoas que não mais ensinassem tais coisas. Mas por que Paulo é tão enfático contra estes ensinamentos e seus agentes? Qual era o conteúdo destes ensinamentos e quais os efeitos para a vida da igreja?
a.O conteúdo das falsas doutrinas (1:4a e 4:1-7)
i.Mitos e Genealogias
Um dos elementos destas falsas doutrinas era a utilização de genealogias judaicas para a criação de histórias fantasiosas que passavam a justificar crenças e práticas. Alguns estudiosos defendem que estas falsas doutrinas se tornariam o berço para o nascimento de uma heresia ainda mais desastrosa para a fé cristã no Século II e III: o gnosticismo.
Este tipo de pensamente e prática ainda se faz presente nos dias de hoje, tanto na sua versão esotérica sem qualquer conexão com a espiritualidade cristã, como também na sua versão mais sincrética na qual práticas esotéricas se confundem com verdades cristãs. Por exemplo, as orações a anjos, a utilização de amuletos abençoados, entre outras coisas.
ii.Legalismos
Nos primeiros versos do capítulo 4 encontramos referencia a determinadas proibições que estas falsas doutrinas impunham sobre as pessoas. Dentre elas, Paulo destaca, “… proíbem o casamento e o consumo de alimentos…”. Este legalismo estava vinculado a crença não cristã de que a sexualidade e determinadas comidas não eram abençoadas por Deus por estarem vinculadas a sustentação do corpo, o qual era considerado ruim, por ser matéria.
Como veremos a seguir, a lei, enquanto princípio de contenção do mal na sociedade, é boa e deve ser observada. No entanto, o legalismo é a tentativa de, através de regras minuciosas de condutas, ser tido como justo por Deus e pelos seus semelhantes. Logo, se configura como um projeto de auto-salvação através de sua própria determinação, na observância de regras supostamente determinadas por Deus.
b.A consequência das falsas doutrinas (1:4b)
i.Controvérsias
Por um lado, estas falsas doutrinas promoviam grandes controvérsias entre as pessoas, sendo seus mestres conhecidos como homens e mulheres amantes das mesmas.Devido ao caráter mítico das doutrinas e polêmico de suas práticas, as pessoas eram envolvidas pelas discussões e as igrejas tornavam-se vítimas das divisões.
Em I Timóteo 6:4-5 o apóstolo Paulo diz que as pessoas envolvidas por estas falsas doutrinas tinham “um interesse doentio por controvércias e contendas acerca de palavras, que resultam em inveja, brigas, difamações, suspeitas malignas e atritos constantes…”. Por isso mesmo, Paulo exorta Timóteo em 6:20 que “evite conversas inúteis e profanas e as idéias contraditórias do que é falsamente chamado conhecimento…”.
ii.Empecílio para a obra de Deus
Enquanto pessoas eram incentivadas a se envolverem nas especulações e controvérsias, a verdadeira obra de Deus em suas vidas era desestimulada. A simplicidade da fé, unicamente na obra feita por Cristo na cruz e as implicações disso para o dia a dia, eram substituídos pelas discussões dos temas polêmicos levantados pelas falsas doutrinas, gerando confusão e dispersão.
Ao invés de homens cristãos se desenvolverem na direção da maturidade e da vida irrepreensível, de mulheres cristãs se tornarem moderadas e dedicadas às boas obras e os jovens cristãos se apresentarem como modelo a outros da sociedade, toda energia era gasta na suposta busca de um conhecimento restrito a um grupo seleto. Assim, a transformação gerada pelo verdadeiro Evangelho era desprezada.
2.A Prevenção e o combate as falsas doutrinas
Diferentemente da postura pluralsta e tolerante da cultura greco-romana, a qual incentivava a inclusão das mais variadas idéias e práticas ao invés da rejeição assertiva do que não era verdadeiro ou proveitoso, o apóstolo Paulo aponta ao seu filho na fé o dever de prevenir-se objetivamente destas falsas doutrinas e combate-las com firmeza.
a.Como prevenir-se? (1:5-7 e 1:18-20)
Paulo deixa claro ao seu filho na fé, Timóteo, que a motivação na instrução que estava escrevendo era o amor. Muitas vezes, pessoas entendem como falta de amor apontar o erro de pensamento ou de comportamento de outro. Mas Paulo deixa claro que, apesar de sua instrução apontar claramente o equívoco de tais mestres, sua motivação é o amor aos crentes.
Certamente, mesmo aqueles que se preocupam com a preservação do Evangelho de Deus acabam por se afastar do mesmo quando se tornam incapazes de amar aos outros, inclusive aqueles que pensam de forma diferente. Existe sempre o perigo de, no processo de amar a verdade, passarmos a odiar as pessoas que não compreendem a verdade.
Por isso, Paulo complementa que este amor que o move na instrução procede de três fontes conjugadas:
i.Um coração puro
Refere-se ao cuidado que todo líder cristão deve ter com sua pureza interior. Inútil será dedicar-se intensamente a manter-se puro exteriormente se o coração não estiver puro. Mais cedo ou mais tarde nossas vidas se transformam no que nossos corações se alimentam ou especulam.
ii.Uma boa consciência
Refere-se ao cuidado que todo líder cristão deve ter para com sua conduta. Não existem pendências. Os erros cometidos foram confessados e perdoados. As dividas geradas para com terceiros foram sanadas. Mesmo que inimigos levantem acusações, sua consciência encontra-se tranquila diante de Deus.
iii.Uma fé sincera (sem hipocrisia)
Refere-se ao cuidado que todo líder cristão deve ter para com sua fé simples e genuína diante de Deus. Manter a fé demanda o cuidado em pensar corretamente e não deixar-se levar por especulações que corrompem gradativamente o exercício de uma espiritualidade consistente e saudável.
Nos versos 6 e 19 o apóstolo Paulo aponta para o fato de que, alguns cristãos, desprezando a necessidade de manterem um coração puro, uma boa consciência e uma fé sincera, acabaram sendo envolvidos pelas falsas doutrinas e naufragaram na jornada cristã. Paulo menciona como exemplo deste tipo de tragédia os nomes de Himeneu e Alexandre (verso 20).
b.Como combater?
Basicamente, o apóstolo Paulo aponta para duas frentes no combate. A primeira delas está relacionada a compreensão do lugar da lei na espiritualidade cristã. A segunda, está relacionada a compreensão do poder do Evangelho em nossas vidas.
Vejamos cada uma destes frentes:
i.Compreendendo o lugar da lei (1:7-10)
Paulo acusa aqueles que estavam propagando falsas doutrinas como pretensos “mestres da lei”, no entanto, faziam mau uso da lei não conseguindo compreender seu real propósito. Bem possivelmente, estes falsos mestres estavam fazendo uso da lei como o caminho para uma espécie de auto-salvação. Através das inúmeras proibições, procuravam identificar os justos e dignos da salvação.
No entanto, Paulo afirma a partir do verso 9 que a lei não foi dada para os “justos”, mas para os “transgressores”. Com tal afirmação, Paulo não está querendo dizer que existem pessoas justas, mas que a lei foi dada para, primariamente, nos convencer de nossa condição de injustos e incapazes de mudar tal situação pelas nossas próprias forças. Ele descreve inúmeros exemplos nos versos 9 e 10, culminando com “aquele que se opõe a sã doutrina”.
Para João Calvino as três funções da lei são as seguintes:
·Tornar-nos indesculpáveis
A primeira função da lei é manifestar nossa incapacidade de agradar a Deus. Na medida em que Deus concede a lei no Antigo Testamento, através dela, ganhamos consciência de nossa condição como rebeldes e nossa impossibilidade de mudarmos tal situação com nossas próprias forças.
·Refrear o mal na sociedade
A segunda função da lei é conter o pecado na sociedade humana, o qual gera violência, abuso e opressão em todas as esferas. Sem lei, a vida em sociedade se tornaria completamente inviável. Com a lei, a vida em sociedade torna-se minimamente viável.
·Apontar o caminho para liberdade
Por fim, a terceira função da lei é mover-nos na direção da liberdade. Estranho, não? No entanto, para Calvino, esta terceira função só pode ser experimentada por aqueles que possuem o Espírito Santo de Deus que nos conduz a toda verdade, a qual nos liberta para a vida e felicidade.
Avaliando o lugar da lei na espiritualidade cristã, percebemos que não existe qualquer possibilidade dela ser usada, como queriam os falsos mestres, como caminho para a auto-salvação. Na perspectiva bíblica, a lei nunca foi caminho para a salvação.
ii.Compreendendo o lugar do Evangelho (1:11-17)
A partir da primeira função da lei, “tornar-nos indesculpáveis”, o apóstolo Paulo nos mostra como ela nos conduz ao Evangelho (verso 11). Pois somente quando tomamos consciência de quem somos e de nossa incapacidade de mudar tal situação e que olhamos para a obra de Jesus como “boas novas”.
Paulo faz menção de quem ele era anteriormente: blasfemo, perseguidor e insolente (verso 13); mas como a graça de Deus transbordou em sua vida (verso 14). Ele se reconhece como o pior dos pecadores, mas exemplo para todo aquele que deseja receber a vida eterna que nos é oferecida pela fé na obra de Jesus (verso 16).
Conclusão
O primeiro grande tema abordado por Paulo diz respeito aos falsos ensinamentos que estavam, gradativamente, conduzindo as pessoas a um “outro Evangelho”. Especialmente fazendo uma má interpretação do lugar da lei e desprezando o Evangelho de Deus, estes falsos ensinamentos estavam conduzindo as pessoas a discussões e controvérsias de mitologias baseadas nas genealogias e a legalismos.
Diante disso, além de convidar Timóteo a pensar corretamente, elaborando claramente o lugar da Lei e do Evangelho de Deus na espiritualidade cristã, Paulo também o exorta a manter um coração puro, uma boa consciência e uma fé sem hipocrisia. Pois alguns, desprezando estas coisas, haviam se perdido na caminhada cristã.
Para Refletir e Praticar
·Temos nos deixado atrair por “mitos” e “fábulas” da atualidade, as quais promovem mais controvérsias do que a obra de Deus em nossas vidas? Temos a disposição de romper que tais “mitos” e “fábulas”?
·Temos zelado por manter um coração puro, uma boa consciência e uma fé sincera, uma vez que alguns, desprezando estas coisas, alguns vieram a naufragar na jornada cristã?
·Onde tem estado nossa confiança: em nossa própria capacidade de sermos justos diante de Deus? Ou nas boas novas de que Cristo nos fez justos com sua morte na cruz?