Radicalmente Cristão
Espiritualidade com Princípios numa Sociedade sem Parâmetros
Sermão 1
Tome Posição!
I Timóteo 1:3-19
Introdução
O apóstolo Paulo inicia sua primeira carta à Timóteo relembrando seu filho na fé acerca da razão pela qual ordenou que ele permanecesse na cidade de Éfeso, quando seguiu para Macedônia em sua quarta viagem missionária. Paulo define a missão de Timóteo como sendo “ordenar a certas pessoas que não mais ensinem doutrinas falsas”. Suas palavras são objetivas e soam até mesmo autoritárias.
A verbo utilizado por Paulo para se referir as doutrinas falsas (heterodidaskaleo = heteros + didaskaleo) poderia ser traduzido por “outros ensinamentos”, ou seja, ensinamentos que diferem essencialmente daquele ensinado por Jesus e seus apóstolos. Em Gálatas 1:6 Paulo faz menção a estes “outros ensinamentos” usando o termo como sendo um “outro Evangelho” (heteron euaggelion).
Assim como nos tempos de Paulo e Timóteo, vivemos imersos numa cultura pluralista que preza pela tolerância e que se sente muito desconfortável com avaliações mais críticas e assertivas acerca de idéias e práticas que nos envolvem. No entanto, o texto de Paulo a Timóteo nos encoraja a olharmos ao nosso redor de forma mais crítica, percebermos que nem tudo que parece de Deus é realmente Evangelho de Deus e tomarmos posição.
Para tanto, gostaria de sugerir que dividissemos nossa reflexão em duas partes. Na primeira parte, vamos abordar o conteúdo e os efeitos das falsas doutrinas que emergiam no contexto da igreja de Éfeso. Na segunda parte, veremos as recomendações de Paulo acerca de como podemos evitar e combater estas falsas doutrinas.
1. Conteúdo e Efeitos das Falsas Doutrinas
Estes “outros ensinamentos”, ou “outro Evangelho” conforme linguagem de Paulo aos Gálatas, sutilmente, sabotavam o Evangelho de Deus e seus efeitos na vida das pessoas. Por isso, Paulo exorta Timóteo a resistir fortemente a estas idéias, ordenando a certas pessoas que não mais ensinassem tais coisas. Mas por que Paulo é tão enfático contra estes ensinamentos e seus agentes? Qual era o conteúdo destes ensinamentos e quais os efeitos para a vida da igreja?
a. O conteúdo das falsas doutrinas (1:4a e 4:1-7)
i. Mitos e Genealogias
Um dos elementos destas falsas doutrinas era a utilização de genealogias judaicas para a criação de histórias fantasiosas que passavam a justificar crenças e práticas. Alguns estudiosos defendem que estas falsas doutrinas se tornariam o berço para o nascimento de uma heresia ainda mais desastrosa para a fé cristã no Século II e III: o gnosticismo.
Este tipo de pensamente e prática ainda se faz presente nos dias de hoje, tanto na sua versão esotérica sem qualquer conexão com a espiritualidade cristã, como também na sua versão mais sincrética na qual práticas esotéricas se confundem com verdades cristãs. Por exemplo, as orações a anjos, a utilização de amuletos abençoados, entre outras coisas.
ii. Legalismos
Nos primeiros versos do capítulo 4 encontramos referencia a determinadas proibições que estas falsas doutrinas impunham sobre as pessoas. Dentre elas, Paulo destaca, “… proíbem o casamento e o consumo de alimentos…”. Este legalismo estava vinculado a crença não cristã de que a sexualidade e determinadas comidas não eram abençoadas por Deus por estarem vinculadas a sustentação do corpo, o qual era considerado ruim, por ser matéria.
Como veremos a seguir, a lei, enquanto princípio de contenção do mal na sociedade, é boa e deve ser observada. No entanto, o legalismo é a tentativa de, através de regras minuciosas de condutas, ser tido como justo por Deus e pelos seus semelhantes. Logo, se configura como um projeto de auto-salvação através de sua própria determinação, na observância de regras supostamente determinadas por Deus.
b. A consequência das falsas doutrinas (1:4b)
i. Controvérsias
Por um lado, estas falsas doutrinas promoviam grandes controvérsias entre as pessoas, sendo seus mestres conhecidos como homens e mulheres amantes das mesmas. Devido ao caráter mítico das doutrinas e polêmico de suas práticas, as pessoas eram envolvidas pelas discussões e as igrejas tornavam-se vítimas das divisões.
Em I Timóteo 6:4-5 o apóstolo Paulo diz que as pessoas envolvidas por estas falsas doutrinas tinham “um interesse doentio por controvércias e contendas acerca de palavras, que resultam em inveja, brigas, difamações, suspeitas malignas e atritos constantes…”. Por isso mesmo, Paulo exorta Timóteo em 6:20 que “evite conversas inúteis e profanas e as idéias contraditórias do que é falsamente chamado conhecimento…”.
ii. Empecílio para a obra de Deus
Enquanto pessoas eram incentivadas a se envolverem nas especulações e controvérsias, a verdadeira obra de Deus em suas vidas era desestimulada. A simplicidade da fé, unicamente na obra feita por Cristo na cruz e as implicações disso para o dia a dia, eram substituídos pelas discussões dos temas polêmicos levantados pelas falsas doutrinas, gerando confusão e dispersão.
Ao invés de homens cristãos se desenvolverem na direção da maturidade e da vida irrepreensível, de mulheres cristãs se tornarem moderadas e dedicadas às boas obras e os jovens cristãos se apresentarem como modelo a outros da sociedade, toda energia era gasta na suposta busca de um conhecimento restrito a um grupo seleto. Assim, a transformação gerada pelo verdadeiro Evangelho era desprezada.
2. A Prevenção e o combate as falsas doutrinas
Diferentemente da postura pluralsta e tolerante da cultura greco-romana, a qual incentivava a inclusão das mais variadas idéias e práticas ao invés da rejeição assertiva do que não era verdadeiro ou proveitoso, o apóstolo Paulo aponta ao seu filho na fé o dever de prevenir-se objetivamente destas falsas doutrinas e combate-las com firmeza.
a. Como prevenir-se? (1:5-7 e 1:18-20)
Paulo deixa claro ao seu filho na fé, Timóteo, que a motivação na instrução que estava escrevendo era o amor. Muitas vezes, pessoas entendem como falta de amor apontar o erro de pensamento ou de comportamento de outro. Mas Paulo deixa claro que, apesar de sua instrução apontar claramente o equívoco de tais mestres, sua motivação é o amor aos crentes.
Certamente, mesmo aqueles que se preocupam com a preservação do Evangelho de Deus acabam por se afastar do mesmo quando se tornam incapazes de amar aos outros, inclusive aqueles que pensam de forma diferente. Existe sempre o perigo de, no processo de amar a verdade, passarmos a odiar as pessoas que não compreendem a verdade.
Por isso, Paulo complementa que este amor que o move na instrução procede de três fontes conjugadas:
i. Um coração puro
Refere-se ao cuidado que todo líder cristão deve ter com sua pureza interior. Inútil será dedicar-se intensamente a manter-se puro exteriormente se o coração não estiver puro. Mais cedo ou mais tarde nossas vidas se transformam no que nossos corações se alimentam ou especulam.
ii. Uma boa consciência
Refere-se ao cuidado que todo líder cristão deve ter para com sua conduta. Não existem pendências. Os erros cometidos foram confessados e perdoados. As dividas geradas para com terceiros foram sanadas. Mesmo que inimigos levantem acusações, sua consciência encontra-se tranquila diante de Deus.
iii. Uma fé sincera (sem hipocrisia)
Refere-se ao cuidado que todo líder cristão deve ter para com sua fé simples e genuína diante de Deus. Manter a fé demanda o cuidado em pensar corretamente e não deixar-se levar por especulações que corrompem gradativamente o exercício de uma espiritualidade consistente e saudável.
Nos versos 6 e 19 o apóstolo Paulo aponta para o fato de que, alguns cristãos, desprezando a necessidade de manterem um coração puro, uma boa consciência e uma fé sincera, acabaram sendo envolvidos pelas falsas doutrinas e naufragaram na jornada cristã. Paulo menciona como exemplo deste tipo de tragédia os nomes de Himeneu e Alexandre (verso 20).
b. Como combater?
Basicamente, o apóstolo Paulo aponta para duas frentes no combate. A primeira delas está relacionada a compreensão do lugar da lei na espiritualidade cristã. A segunda, está relacionada a compreensão do poder do Evangelho em nossas vidas.
Vejamos cada uma destes frentes:
i. Compreendendo o lugar da lei (1:7-10)
Paulo acusa aqueles que estavam propagando falsas doutrinas como pretensos “mestres da lei”, no entanto, faziam mau uso da lei não conseguindo compreender seu real propósito. Bem possivelmente, estes falsos mestres estavam fazendo uso da lei como o caminho para uma espécie de auto-salvação. Através das inúmeras proibições, procuravam identificar os justos e dignos da salvação.
No entanto, Paulo afirma a partir do verso 9 que a lei não foi dada para os “justos”, mas para os “transgressores”. Com tal afirmação, Paulo não está querendo dizer que existem pessoas justas, mas que a lei foi dada para, primariamente, nos convencer de nossa condição de injustos e incapazes de mudar tal situação pelas nossas próprias forças. Ele descreve inúmeros exemplos nos versos 9 e 10, culminando com “aquele que se opõe a sã doutrina”.
Para João Calvino as três funções da lei são as seguintes:
· Tornar-nos indesculpáveis
A primeira função da lei é manifestar nossa incapacidade de agradar a Deus. Na medida em que Deus concede a lei no Antigo Testamento, através dela, ganhamos consciência de nossa condição como rebeldes e nossa impossibilidade de mudarmos tal situação com nossas próprias forças.
· Refrear o mal na sociedade
A segunda função da lei é conter o pecado na sociedade humana, o qual gera violência, abuso e opressão em todas as esferas. Sem lei, a vida em sociedade se tornaria completamente inviável. Com a lei, a vida em sociedade torna-se minimamente viável.
· Apontar o caminho para liberdade
Por fim, a terceira função da lei é mover-nos na direção da liberdade. Estranho, não? No entanto, para Calvino, esta terceira função só pode ser experimentada por aqueles que possuem o Espírito Santo de Deus que nos conduz a toda verdade, a qual nos liberta para a vida e felicidade.
Avaliando o lugar da lei na espiritualidade cristã, percebemos que não existe qualquer possibilidade dela ser usada, como queriam os falsos mestres, como caminho para a auto-salvação. Na perspectiva bíblica, a lei nunca foi caminho para a salvação.
ii. Compreendendo o lugar do Evangelho (1:11-17)
A partir da primeira função da lei, “tornar-nos indesculpáveis”, o apóstolo Paulo nos mostra como ela nos conduz ao Evangelho (verso 11). Pois somente quando tomamos consciência de quem somos e de nossa incapacidade de mudar tal situação e que olhamos para a obra de Jesus como “boas novas”.
Paulo faz menção de quem ele era anteriormente: blasfemo, perseguidor e insolente (verso 13); mas como a graça de Deus transbordou em sua vida (verso 14). Ele se reconhece como o pior dos pecadores, mas exemplo para todo aquele que deseja receber a vida eterna que nos é oferecida pela fé na obra de Jesus (verso 16).
Conclusão
O primeiro grande tema abordado por Paulo diz respeito aos falsos ensinamentos que estavam, gradativamente, conduzindo as pessoas a um “outro Evangelho”. Especialmente fazendo uma má interpretação do lugar da lei e desprezando o Evangelho de Deus, estes falsos ensinamentos estavam conduzindo as pessoas a discussões e controvérsias de mitologias baseadas nas genealogias e a legalismos.
Diante disso, além de convidar Timóteo a pensar corretamente, elaborando claramente o lugar da Lei e do Evangelho de Deus na espiritualidade cristã, Paulo também o exorta a manter um coração puro, uma boa consciência e uma fé sem hipocrisia. Pois alguns, desprezando estas coisas, haviam se perdido na caminhada cristã.
Para Refletir e Praticar
· Temos nos deixado atrair por “mitos” e “fábulas” da atualidade, as quais promovem mais controvérsias do que a obra de Deus em nossas vidas? Temos a disposição de romper que tais “mitos” e “fábulas”?
· Temos zelado por manter um coração puro, uma boa consciência e uma fé sincera, uma vez que alguns, desprezando estas coisas, alguns vieram a naufragar na jornada cristã?
· Onde tem estado nossa confiança: em nossa própria capacidade de sermos justos diante de Deus? Ou nas boas novas de que Cristo nos fez justos com sua morte na cruz?
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